Bienal do Whitney traz à tona filantropia tóxica

Por SELECT ART

A 79ª Bienal do Whitney chega ao fim no próximo dia 22 de setembro, em Nova York, com menos a se dizer sobre a exposição em si do que sobre os efeitos causados pela enorme polêmica que vinha se arrastando desde novembro. Warren Kanders, então vice-presidente do conselho do museu americano, se tornou o tema principal desta edição, quando foi divulgada a ligação do seu grupo Safariland com o armamento usado pelos Estados Unidos em manifestações na fronteira com o México. Após meses de protestos pedindo sua saída do museu, entre eles a ameaça de oito artistas de retirar seus trabalhos da exposição, o caso culminou na sua renúncia no final de julho. 

A importância deste fato não apenas torna esta edição umas das mais importantes na história da bienal do Whitney como inaugura um precedente que promete apertar o cerco aos museus sobre o espinhoso debate envolvendo patrocinadores com negócios controversos, como a indústria bélica, farmacêutica ou responsáveis por desastres ambientais. Se o modelo americano de financiamento privado a museus já foi referência para outros países em tempos de verbas públicas reduzidas, a discussão sobre filantropia tóxica e artwashing – empresas que investem em arte para melhorar sua imagem – levantou um alerta vermelho nesse setor.   

Embora muitos desses protestos tenham começado na época do movimento Occupy, em 2011, o assunto foi ganhando força nos últimos anos com a reação em cadeia de instituições como National Gallery, Tate, Guggenheim e Metropolitan Museum. Todas abriram mão do apoio da família Sackler – ligada à indústria farmacêutica que enriqueceu com a produção de venda do Oxicontim, remédio altamente viciante e em parte responsável pela crise de opioides nos Estados Unidos –, após uma série de ações promovidas pela artista Nan Goldin. 

 O assunto também foi destrinchado recentemente por Andrea Fraser no livro 2016 in Museums, Money, and Politics (2018). Sua motivação inicial foi quando descobriu que o chefe do financiamento da campanha de Donald Trump era um dos diretores do conselho do MoCA, de Los Angeles. A partir desse fato, começou uma investigação apontando as relações entre membros de conselhos de diversos museus nos Estados Unidos com a política eleitoral de 2016 – a eleição mais cara na história americana. Com esse trabalho, Fraser aproximou a atuação da crítica institucional, da qual é uma das pioneiras, a ações mais próximas da política, que defende como prática necessária nesse momento.  

É nesse contexto que o Decolonize This Place – articulador dos protestos ocorridos no Whitney – se coloca e vem ganhando espaço em uma nova onda de crítica institucional. Os principais membros do grupo são o palestino-americano Amin Husain e a indiana-americana Nitasha Dhillon – além de ativistas, os dois também são artistas e acadêmicos. Em um artigo publicado ano passado na prestigiada revista October, eles contextualizam suas ações entre as diversas fases da crítica institucional, apontando como diferença o fato de usarem mais táticas de movimentos sociais, buscando diálogo com outros setores da sociedade e não apenas dentro das instituições.   

Além do combate à filantropia tóxica, suas demandas por uma descolonização institucional vão além da inclusão de minorias em acervos ou exposições progressistas. Pedem a transformação estrutural desses espaços – da devolução de obras saqueadas à diversidade do conselho, impactando nos poderes de decisão. 

Poster da primeira semana de protestos organizados pelo grupo Decolonize This Place que diz: “Nenhum espaço seguro para pessoas que lucram da violência estatal. A crise do Whitney. Começa em 22 de Março. Warren B. Kanders deve sair. 9 semanas de arte e ação” (Foto: Decolonize This Place)

 

Toda essa discussão ainda parece muito distante do contexto brasileiro, onde a crítica institucional nunca teve muita força ou aceitação – em parte pela fragilidade das instituições, mas também por um posicionamento pouco aberto a questionamentos. O caso mais conhecido nos últimos anos foi na 31ª Bienal, em 2014, quando o boicote dos artistas ao patrocínio do Estado de Israel, apoiado pelo curador Charles Esche rendeu um grande mal-estar entre ele e Fundação, que acabou escolhendo outra equipe para curar o Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, o que não é comum.

O histórico da Fundação Bienal tem também o precedente nebuloso do banqueiro Edemar Cid Ferreira, que usou a instituição para fins personalistas nos quatro anos em que esteve na presidência. 

Em tempos de censura e esvaziamento na área cultural, é ainda menos provável que essa discussão avance por aqui. Difícil imaginar, por exemplo, que alguma instituição deixasse de aceitar o apoio de empresas ligadas à Vale por causa do desastre de Brumadinho. Por outro lado, ao ignorar questões como essa, corre-se o risco de deixar os museus brasileiros isolados de um debate que tem tudo para crescer no mundo todo. 

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